sexta-feira, 23 de julho de 2010

A ética do viver

Foi um primo meu, na época com 25 anos, que me falou a primeira vez que a cidade não era meu lugar. Não sei baseado no que, já que eu tinha apenas 15 anos. Talvez no fato da cidade não ser o lugar dele também. Pode ser, afinal, quem conhece, reconhece...


O fato é que os anos mostraram que ele estava correto. Quanto mais eu crescia, mais a cidade de São Paulo e aquela ocupação concentrada me parecia um lugar labiríntico, com ruas que terminavam em outras ruas e portas ao lado de portas que levavam a ambientes fechados e...a outras portas. O impacto em mim talvez tenha sido maior pelo fato de ser justamente o tempo (1975 a 1980) que São Paulo explodiu em prédios, grades e trânsito.

Um novo tipo de assaltos e violência começou a ser parte do cotidiano e as multidões tomaram conta das ruas, nos ônibus, filas de banco e supermercados. Claro que existia uma efervescência cultural, uma entrada para a modernidade do primeiro mundo, que era instigante para qualquer jovem, mas isso ficava em segundo plano para mim. Afinal, seguindo o roteiro adolescente existencial, pensava : qual era o sentido de tudo aquilo? Para quê aquela vida amontoada, barulhenta e corrida?


Parece que eu fazia parte de uma geração onde essas questões começaram realmente a entrar na pauta. Se naquela época eu soubesse que ser um adolescente desadaptado e meio insociável no meio urbano não era assim tão estranho, e que era até meio vanguarda, talvez eu tivesse poupado algumas crises...


A reflexão ecológica e a consciência da impossibilidade de sustentar esse modelo de desenvolvimento passou a se tornar cada vez mais coletiva a a partir daqueles anos, fruto do movimento hippie, da primeira Conferência da ONU pelo Meio Ambiente (1972, Estocolmo) e dos fatos que iam se somando como a guerra fria, energia nuclear, poluição das águas, os pesticidas nos alimentos .

Desde então foi-se constatando o buraco de ozônio, o efeito estufa, o derretimento das calotas polares e todas as outras mazelas que estão levando o homem a decretar sua própria extinção...A percepção planetária começava a ficar mais nítida.


Bem, eu prometi aqui no blog não ficar reproduzindo o discurso ecológico. E vou cumprir! As citações acima são para localizar a qual geração e a quais tempos estamos nos referindo e que remetem à macrotransição citada alguns posts atrás. Diferente de qualquer outra época da humanidade, nossa geração detém um poder nunca antes alcançado anteriormente, de causar uma destruição em massa, de dimensão planetária.


O que eu percebo é que a principal causa dessa ameaça não é termos tanto conhecimento e poder, mas sim, não termos a ética necessária para lidar com essas possibilidades. A ética que nos falta é a de assumir que somos uma parte desse sistema e não seus donos, proprietários ou exploradores. Perdemos a noção de que somos filhos da Terra e que nosso destino está totalmente ligado ao destino da Terra. A carta do Chefe Seatle ao presidente dos Estados Unidos, foi sem dúvida, a mais perfeita Constituição já escrita. Ela serve não para um país, mas para toda humanidade.


É justamente essa ética, a ética da Vida, que nos impulsiona de volta ao campo. Estamos como orfãos, sem referências ou bússola na nossa caminhada. Parece que o consumo substituiu o norte natural e se tornou um moto contínuo, daonde extraímos nossa identidade e valores. As mídias são as novas religiões e passamos a acreditar em tudo que eles dizem para nós. A esse tipo de interesse das grandes coorporações não convém que resgatemos valores originais ou referências naturais. A lógica do mega-lucro não é compatível com a lógica da natureza. Enquanto os processos naturais são ciclícos e renováveis, a lógica da produção industrial de grande escala, seja agropecuária, tecnológica, automobilística, etc, é linear e não renovável, extraindo o que pode até o fim da capacidade dos recursos naturais e humanos e jogando os resíduos disso em qualquer parte.

Aonde vamos chegar?

O que podemos fazer para deter esse avanço cujo resultado já podemos prever?


Somos uma partícula perante este estado de coisas, é verdade. Entendo que o que nos resta é sermos coerentes, nos determos um pouco enquanto a multidão avança e conseguirmos olhar em volta e realmente ver a natureza, as pessoas, o céu acima de nós. Precisamos de uma pausa antes de continuar. Resgatar o que somos enquanto seres naturais é a verdadeira ética a ser restaurada. É essa ética que pode sanar a causa de tanta inabilidade humana para gerir a Vida na Terra.

Isso é com cada um e não depende de políticas, dinheiro ou tempo. É uma atitude. Novamente estamos diante das nossas escolhas pessoais.

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